O carma do job

    Não entendo por que todo troféu distribuído por festivais de publicidade precisa parecer um fóssil de cocô. E também não entendo por que os chefes adoram expô-los sobre a mesa, entre as action figures e os livros inteligentes que nunca leram.
    De toda forma, são só algumas mesquinharias, dentre tantas, a tolerar neste negócio. Eu já me acostumei. Sinto-me grato por ficar sentado diante de um computador, a lidar apenas com as letras, e não debaixo de um lancinante sol, "no cabo da enxada", como me amaldiçoava meu pai ao me ver vadiando. 
    Não sei como vim parar aqui, pois não cursei publicidade e não a desejei em nenhum momento. Mas precisava ganhar dinheiro. E até que gostei porque descobri que para mim é fácil. De vez em quando tem uns quitutes, uns docinhos e outros agrados para provar que a agência é humana. Curto os mimos do dia do publicitário, embora me ache usurpador. Essa esfirra e essa coca eram para ser de outro.
    Apesar do ar de falsidade que preenche cada espacinho do setor publicitário, se você faz vista grossa e pensa no dinheiro na conta para pagar os boletos, é um ambiente tolerável. Aceitável, como toda desgraça que não deveria existir. Todo mundo tem burn out, toma remédios, os chefes são estupidos ignorantes e vaidosos, os clientes não sabem do que se trata o serviço que eles pagam, mas a gente vai tocando.
    É temporário: sou um turista já cansado da viagem, mas que ainda precisa atravessar a ponte esburacada. A campanha ruim traz uma alegria ainda mais deleitável quando acaba. Um dia, quando eu estiver preparado, sairei por uma porta daquela com a certeza de que nunca mais lerei um briefing. E a partir disto, a publicidade existirá em mim apenas nas memórias dos jobs, dos colegas publicitários, divertidos que só eles, e dos piripaques nervosos dos antigos chefes. Enquanto esse dia não chega, vou aqui mexer mais um pouquinho em meu portfólio.

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